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Entro como Brasileiro, mas sou Espanhol: 100 Anos depois

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Foto: Família Martins Ganga /Arquivo pessoal de J.Ramos/ Divulgação/ Restaurada por IA / Arte J. Ramos VVB Sp News

O caminho inverso: a saga de Jorge Ramos Martins para resgatar a herança de uma família que nunca deixou de ser ibérica

Crônica por Jorge Ramos Martins

O destino, às vezes, leva um século para se completar. Para muitos, um documento é apenas um papel amarelado pelo tempo ou um carimbo burocrático. Para mim, as Cédulas de Nacionalidade nº 1.406 e 1.407, emitidas pelo Consulado da Espanha em Santos em 12 de novembro de 1928, são o roteiro de uma saga que define quem eu sou.
Ao cruzar a fronteira espanhola nos próximos meses, o gesto será simples: entregarei o passaporte cor de vinho. Mas, por trás desse ato, haverá o eco dos passos de Pedro Martins Ganga e Nemésia Galán Osorio.

O Começo: Entre o Mediterrâneo e a Extremadura

Eles saíram de uma Espanha que já não lhes bastava. Pedro, o “Periodista” de Alicante, aqui no Brasil temendo as perseguições políticas de sua pátria, Pedro se apresentou como “jornalero” (trabalhador rural da Espanha) ao aportar em Santos, trazendo consigo a dignidade do trabalho. Nemésia, natural de Hinojosa del Valle, em Badajoz, trazia a coragem das mulheres da Extremadura. Ela chegou ao Brasil sem saber assinar o nome — como atesta sua cédula consular — mas com a sabedoria de quem sabia ler o destino.

Viveram a pressa de quem busca o pão: Santos, São Paulo, e até um mergulho em solo argentino. Estabeleceram-se em Ourinhos, onde meu avô Pedro serviu à Prefeitura local, como jardineiro, fincando raízes no interior paulista. Foi ali que nasceu minha mãe, Leonor Martins, o elo definitivo dessa corrente.

O Nó do Destino na Teles Parker e a Fé na Santa Efigênia

A história mudou de rumo com a viuvez precoce de minha avó Nemésia. Mulher de fibra, ela buscou o “porto seguro” da colônia espanhola na capital. E foi em meio ao progresso da época que o destino deu seu nó mais bonito: meus pais se conheceram trabalhando na *Teles Parker*, uma indústria de rádios de origem alemã que operava em São Paulo.
Ali, entre as linhas de montagem, minha mãe — a jovem de Ourinhos com sangue de Badajoz e Alicante — encontrou meu pai. Ele era um migrante pernambucano, mas que carregava em sua própria origem o mistério do reencontro: ele era filho de uma galega.

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Foto: Francisco Ramos Neto e Leonor Martins Ramos/ Arquivo de família J. Ramos

O elo entre a herança espanhola e a fibra brasileira: Meus pais em um registro do final da década de 80, décadas após o encontro que uniu Alicante, Badajoz, Galiza e o Nordeste.
O encontro na fábrica virou compromisso no altar da histórica Igreja de Santa Efigênia, no coração de São Paulo. Dali, o novo casal partiu para construir a vida no Butantã, bairro onde eu criado e onde o sangue da Galiza, do sertão pernambucano, de Badajoz e de Alicante finalmente se fundiu em um novo ramo da família.

A Espanha que rondou o Brasil para chegar em Americana no ano de 2003.
A Espanha sempre esteve rondando minha família. Estava no Norte com minha avó paterna, no Leste e no Oeste com meus avós maternos. Toda essa herança convergiu para a capital, passou pelo Butantã e desaguou aqui, onde hoje sou o Jorge Ramos de Americana.
Durante anos, os nomes foram grafados errado nos cartórios: Nemésia virou “Narcisa”; Ganga virou “Ganja”. Mas a verdade dos fatos não aceita o erro como ponto final. Fui atrás dos batismos em Badajoz e dos registros em Alicante para provar que aquela família de 1928 nunca deixou de existir em mim.

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Foto: Documentos originais/ Arquivo de Família J. Ramos/ Arte J. Ramos VVB Sp News

O Ciclo que se Fecha

Quando eu assinar meu nome como Jorge Ramos Martins no registro espanhol, estarei devolvendo a Pedro e Nemésia a nacionalidade que a necessidade lhes tomou, mas que o sangue preservou. E quis o destino selar o sangue de meus filhos com mais uma herança espanhola, pela bisavó materna, natural de Zaragoza.
Cem anos depois, a viagem de volta está marcada. O passaporte cor de vinho é o selo de uma história que resistiu ao tempo e aos erros de perseguições e cartorários.

“Fico no Brasil como brasileiro, mas retorno a Espanha como espanhol”.

Jorge Ramos é Jornalista (“Periodista”), comentarista político, articulista, cronista e consultor financeiro securitário. É graduado em Administração/Gestão Pública com extensão em Marketing Político Eleitoral e pós-graduado em Direito Constitucional.

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