Uma sátira sobre o medo de existir em público
Era 31 de dezembro e o mundo inteiro se preparava para a virada. Fogos, champanhe, abraços. Eu? Preparava meu bunker emocional. Porque sair de casa hoje é mais perigoso do que atravessar a Marginal Tietê de olhos vendados.
Se eu olhar para alguém obeso, pronto: gordofóbico! Se eu não sorrir para um gay, homofóbico! Se eu erguer a sobrancelha diante de uma mulher, misógino! Se eu achar graça de uma fala com sotaque de alguma região, pronto: xenofóbico! E se, por acaso, essa pessoa também for negra… aí é o apocalipse social, o fim da minha reputação, a prova definitiva de que nasci errado.
Perdão, mundo, por ter vindo ao planeta branco, hetero e sem dinheiro. Uma combinação explosiva: não sou minoria, mas também não sou elite. Sou apenas o sujeito invisível que paga boleto e pede fiado na padaria.
Enquanto todos se preparam para a virada, eu preparo minha defesa. Não contra ladrões, não contra assaltos, mas contra acusações. O tribunal da opinião pública não dá trégua. A cada olhar, um processo. A cada silêncio, uma sentença.
Na Espanha se respeita tudo isso, mas não tem o vitimismo estrutural. Lá, o bom senso ainda não foi cancelado.
E se por azar eu encontrar um cão de rua e, para me defender, eu atacar com uma pedra… ahhh meu Deus, é crime de maus-tratos!
E assim, decidi: não saio. Fico em casa, protegido pelo cobertor/ventilador e pela solidão. Lá fora, o mundo celebra. Aqui dentro, eu ensaio desculpas. Quem sabe, no próximo ano, inventem uma nova categoria de crime: “indiferença festiva”. Aí sim, estarei condenado por não ter ido ao Réveillon.
Mas tudo bem. Pelo menos, no silêncio da sala, ninguém me chama de nada. Nem gordofóbico, nem homofóbico, nem misógino, nem xenofóbico, nem agressor de cães. Apenas… chato. E isso, convenhamos, já é uma vitória.
Está ficando chato viver aqui.
Jorge Ramos é Jornalista, comentarista político, articulista e cronista, consultor financeiro e securitário, graduado em administração/gestão pública com extensão em marketing político e pós-graduado em direito constitucional… ahh, branco, hetero e sem grana.
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Um comentário em “Crônica: O Réveillon do Culpado (versão satírica)”
Texto maravilhoso. Sinto o mesmo. Réveillon com tantas regras é chato. Feliz 2026, amigo!!