Entre a dureza da lei e a conveniência da narrativa, resta a verdade sufocada.
Três anos depois, ainda ecoa nos corredores do poder a narrativa de que o Brasil teria vivido uma “tentativa de golpe”. O episódio de 8 de janeiro de 2023 foi elevado à categoria de marco histórico. Mas a verdade inconveniente é que não houve golpe. Houve protesto radical, desordem e vandalismo — e uma narrativa oficial que transformou indignação popular em conspiração.
A invenção conveniente
Não houve comando militar, tanques nas ruas ou quartéis mobilizados.
O que existiu foram manifestantes inconformados com os resultados das urnas — e até hoje muitos não estão satisfeitos.
Mas daí a chamá-los de “atentadores do Estado Democrático de Direito” é, no mínimo, maldade. Uma maldade aplicada com a força da lei: Dura lex, sed lex — a lei é dura, mas é a lei.
Só que, na prática, essa dureza virou discurso. Daí nasce o deboche: Lex ora lex — a lei não como justiça, mas como oratória, como narrativa conveniente.
O custo da narrativa
Milhões de reais foram gastos em exposições, documentários e campanhas para fixar a versão oficial.
Centenas de cidadãos foram presos preventivamente, muitos ainda respondendo por processos longos e desgastantes.
O preço humano é devastador: famílias destruídas, carreiras arruinadas, pessoas transformadas em símbolos de um crime que nunca existiu.
O tribunal da memória
A insistência em chamar vandalismo de golpe é uma estratégia de poder.
Quem questiona a versão oficial é rotulado de cúmplice ou negacionista.
O “golpe que nunca existiu” virou dogma: não se discute, não se relativiza, apenas se repete.
O frenesi por trás da mentira
Memória seletiva: eternizar o episódio como golpe garante que futuras gerações vejam manifestantes como traidores.
Polarização útil: manter viva a ideia de ameaça fortalece quem se apresenta como guardião da democracia.
Economia política da narrativa: transformar protesto em golpe rende capital político e legitima gastos públicos.
Conclusão
O Brasil não viveu um golpe em 8 de janeiro de 2023. Viveu um protesto violento, desorganizado, que jamais teve condições de tomar o poder. O “golpe” é uma invenção conveniente, uma mentira oficial que custa caro — em dinheiro público e em vidas destruídas. O verdadeiro atentado não foi contra os prédios, mas contra a verdade.
✍️ Jorge Ramos é Jornalista, Comentarista político, articulista e cronista, consultor financeiro e secretário. Graduado em Administração/Gestão Pública com extensão em Marketing Político, pós-graduado em Direito Constitucional.







