No dia em que Bolsonaro foi condenado pelo STF, Lula anuncia R$ 3,2 milhões em emendas — parte de uma ofensiva que revela um Congresso dominado por interesses próprios.
Por Jorge Ramos
No último dia do julgamento que condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o pagamento de R$ 3,2 milhões em emendas parlamentares. Esse valor, embora expressivo, é apenas uma fração de uma ofensiva maior: desde o início da análise do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), o governo já liberou R$ 3,2 bilhões em emendas — sendo R$ 2,3 bilhões pagos em um único dia, 9 de setembro, o maior desembolso de 2025.
A movimentação revela uma estratégia clara: conter o avanço da proposta de anistia aos condenados por tentativa de golpe, da qual Bolsonaro é o principal alvo. Com o Congresso dividido — parte do centrão quer enterrar a proposta, outra parte apoia a oposição — o governo aposta na liberação acelerada de recursos para consolidar apoio e retomar o controle da pauta legislativa.
Mas essa ofensiva política escancara um dilema ético e institucional. A maior parte dos recursos (91,3%) corresponde a emendas individuais, que garantem retorno político direto aos parlamentares. Em vez de representar os interesses da população, muitos congressistas se comportam como operadores de balcão, negociando sua fidelidade em troca de verbas. O templo da política se converte em mercado, e os representantes do povo em vendilhões.
Enquanto isso, o país enfrenta um rombo fiscal projetado em até R$ 74,7 bilhões para 2025, com a dívida pública podendo ultrapassar 79% do PIB. A liberação bilionária de emendas, embora eficaz para garantir governabilidade, compromete a sustentabilidade das contas públicas e aprofunda o distanciamento entre representantes e representados.
Diante da omissão legislativa, alguns ministros do STF têm assumido um papel de contrapeso institucional. Ao barrar excessos e enfrentar pautas que ameaçam o Estado de Direito, o Judiciário se torna necessário — não por protagonismo, mas por ausência de quem deveria protagonizar. Quando o Congresso se vende, o Supremo se levanta.
Este editorial não é apenas uma crítica. É um chamado à reinvenção da política. Porque enquanto o Executivo compra, o Legislativo se vende e o Judiciário tenta conter, quem paga a conta é o povo. E essa fatura, como sempre, chega — com juros, correção e indignação.
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