Entre obeliscos, vaidades e fumaça, Americana flerta com a estética portenha e revela sua alma dramática — com pedido de desculpas aos hermanos.
Durante muito tempo, confesso, fiz dos argentinos alvo fácil das minhas pitadas ácidas. Era quase um esporte: criticar o ego portenho, o drama do tango, a pose de quem se acha europeu em pleno hemisfério sul. Mas a vida, essa senhora irônica, me apresentou um novo tipo de personagem, o americanense com alma de pecha argentina.
Sim, pecha. Aquela mistura de orgulho, vaidade e teatralidade que eu achava exclusiva das calçadas de Buenos Aires. Mas não. Em Americana, há quem desfile com a mesma pose, o mesmo olhar de quem acredita que nasceu para ser europeu, só que no interior paulista, entre a Avenida Brasil e o Portal Princesa Tecelã.
E foi ali, no portal da cidade, que se ergue um obelisco de sete metros de altura, doado pela empresa Sudeste Pré-Fabricados, em homenagem aos 150 anos de fundação. Um gesto nobre, dizem. Um símbolo de força, defesa e proteção. Mas também, convenhamos, um marco da nova era: a era da Amerigentina.
Falta pouco para a Casa Rosada surgir entre os prédios da prefeitura, com direito a varanda para discursos e bandeiras tremulando ao som de Gardel remixado com sertanejo universitário. E nesse cenário, me vejo obrigado a pedir desculpas aos hermanos. Porque, ao conhecer certos americanenses, percebi que o drama, o orgulho e a teatralidade não são exclusividade do Rio da Prata. Eles também brotam por aqui, entre sessões da Câmara Municipal e posts indignados sobre o Dia Municipal do Flashback.
E se Buenos Aires significa “bons ares”, aqui em Amerigentina o ar chega temperado com o perfume industrial da Suzano Papel e Celulose, misturado ao aroma defumado das queimadas que transformam o céu em um filtro sépia permanente. A revolução, por aqui, é olfativa. E a Defesa Civil já alertou: a umidade do ar despencou para níveis que fariam até um cacto pedir umidificador.
Mas nem tudo está perdido. Porque em Amerigentina, o espírito revolucionário ainda vive. Não aquele das barricadas e bandeiras vermelhas, mas o da crônica ácida, da sátira bem-humorada e da esperança de que, um dia, o ar seja tão limpo quanto o discurso político em época de eleição.
E se não for, que ao menos tenhamos máscaras estilizadas, spray nasal e um bom senso de humor para enfrentar essa revolução simbólica. Porque aqui, entre obeliscos e datas municipais do Airsoft, o que não falta é inspiração, ainda que venha com cheiro de eucalipto queimado.
¡Viva la revolución! E que os bons ares, um dia, cheguem por aqui também.
Jorge Ramos é Jornalista, Comentarista Político, articulista e cronista, Consultor financeiro e securitário, Graduado em Administração/Gestão Pública e pós-graduado em Direito Constitucional.
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